DOSSIÊ HISTÓRICO E TESTEMUNHAL A Fumaça da Petrobras (1970 – 1975)
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POVO MAYURUNA MATSÉSAldeia Nova Esperança do Rio Pardo
Terra Indígena Vale do Javari
DOSSIÊ
HISTÓRICO E TESTEMUNHAL
A
Fumaça da Petrobras (1970 – 1975)
Folha de Identificação e Protocolo
Natureza do documento | Dossiê Histórico e Testemunhal – Prova documental e oral |
|---|---|
Título | A Fumaça da Petrobras (1970-1975) – Aldeia Shubu Nacshëdbud |
Registro em campo | 09 a 12 de julho de 2026, Aldeia Nova Esperança do Rio Pardo, TI Vale do Javari, Município de Atalaia do Norte – AM |
Guardiões da memória (anciãos) | Raul Dunun Mayuruna, Antonio Tumi Mayuruna (Antonio Dunu) e Branco Pemen Mayuruna |
Autor / relator | Assis Siwa Mayuruna, liderança da Aldeia Nova Esperança, TI Vale do Javari, Graduando em Pedagogia EAD – Universidade Estácio |
Participantes / Apoio à escuta | Francisco Manoel Bay Mayuruna, Diego Dunu Mayuruna, Lázaro Manquid Mayuruna |
Aldeia antiga referenciada | Shubu Nacshëdbud (Maloca Torta), cabeceira do Rio Pardo, 09 famílias, duas malocas, sob chefia do Cacique Tumi Mayuruna Bacuëchëshë |
Língua de registro | Português com termos originários Matsés preservados: Cuëdënquido, ismiabo, tsinque, choeque, ada, pabiado, punte |
Destinatários institucionais | Ministério Público Federal (MPF), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), Defensoria Pública da União (DPU), Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados |
Classificação | Documento de memória coletiva – patrimônio imaterial – interesse público e direitos humanos |
Data de fechamento | 12 de julho de 2026 |
Sumário
1. Metodologia: A Escuta como Caminho
Este dossiê foi construído a partir da escuta dos anciãos. Não partimos de arquivos externos para explicar o que vivemos. Partimos da palavra falada, da memória guardada no corpo e na história contada de pai para filho, de mãe para filho, ao redor do fogo.
Entre os dias 09 e 12 de julho de 2026, na Aldeia Nova Esperança do Rio Pardo, Terra Indígena Vale do Javari, realizamos rodas de conversa com os guardiões da memória: Raul Dunun Mayuruna, Antonio Tumi Mayuruna e Branco Pemen Mayuruna. As narrativas foram registradas em áudio e vídeo, com consentimento, e transcritas mantendo o modo próprio de falar, incluindo termos em língua Matsés.
Adotamos como princípio o respeito absoluto à tradição oral. O testemunho oral, para o povo Matsés, tem valor de documento. A palavra do ancião é arquivo. Não corrigimos, não resumimos e não reinterpretamos o sofrimento. Organizamos o texto para que o Estado brasileiro possa ler, mas sem trair a forma como a história foi contada.
A coordenação do trabalho coube a Assis Siwa Mayuruna, liderança da Aldeia Nova Esperança, graduando em Pedagogia EAD pela Universidade Estácio, com apoio de Francisco Manoel Bay Mayuruna, Diego Dunu Mayuruna e Lázaro Manquid Mayuruna na tradução, confirmação de nomes e identificação dos locais antigos.
2. Apresentação
Este dossiê tem três objetivos inseparáveis: preservar, lembrar e exigir direitos.
Preservar: porque os anciãos que viram a chegada da Petrobras estão partindo. Quando eles se vão, parte da história do Rio Pardo vai junto. Este registro é para que nossos filhos e netos saibam o que aconteceu na maloca Shubu Nacshëdbud.
Lembrar: porque o que chamamos de “A Fumaça da Petrobras” não foi um acidente. Foi o resultado direto da entrada de equipes de prospecção sísmica, com abertura de picadas, explosões, pouso de helicópteros e uso de bombas que soltavam fumaça, sem qualquer consulta, aviso ou cuidado com quem vivia ali.
Exigir direitos: porque até hoje não houve reconhecimento oficial dos impactos, não houve pedido de desculpas, não houve reparação e não houve garantia de que a exploração de petróleo não voltará a ameaçar o Vale do Javari, do lado brasileiro e do lado peruano.
Entregamos este documento ao Ministério Público Federal, à FUNAI, à Defensoria Pública da União, ao Ministério dos Povos Indígenas e à Comissão de Direitos Humanos como prova testemunhal coletiva, para que produza efeitos jurídicos e históricos.
3. Quem Somos – O Povo Matsés
Somos o povo Mayuruna, chamados pelos brancos de Matsés. Somos povo da fronteira viva. Vivemos entre os rios Jaquirana, Curuçá, Pardo e Javari, no coração da Terra Indígena Vale do Javari, maior terra indígena do Brasil e abrigo da maior concentração de povos isolados do mundo.
Nossa história é marcada por resistência. Fomos empurrados, atacados por caucheiros e seringueiros, e depois cercados por frentes de contato do Estado. Mas permanecemos. Nossa língua é o Matsés, do tronco Pano. Nossas malocas antigas eram grandes casas coletivas, onde viviam várias famílias sob a liderança de um cacique.
Antes da chegada da Petrobras, vivíamos na aldeia Shubu Nacshëdbud, que os brancos chamavam de Maloca Torta, na cabeceira do Rio Pardo. Eram nove famílias, duas malocas grandes, sob a liderança do Cacique Tumi Mayuruna Bacuëchëshë. Tínhamos roça de macaxeira, banana, milho, caçávamos, pescávamos e fazíamos nossas festas, como a festa do Cuëdënquido.
4. A Chegada da Petrobras na Cabeceira do Rio Pardo (1970)
No ano de 1970, começaram a aparecer na nossa terra equipes da Petrobras. Eram as equipes ES-31 e ES-40, de prospecção sísmica. Segundo documentos que depois conhecemos, foram abertos cerca de 6.000 km de linhas sísmicas no Vale do Javari.
Eles abriram picadas retas na mata, cortando nossas áreas de caça e de roça. Faziam explosões com bombas para escutar o eco no subsolo. Os helicópteros voavam baixo, faziam muito barulho e pousavam em clareiras abertas na marra. O mato tremia. Os animais fugiam.
Nós não fomos consultados. Ninguém avisou o cacique. Ninguém pediu licença. Um dia o barulho chegou perto da maloca. Depois, a fumaça. Depois, os brancos com roupas iguais, botas, capacetes, carregando fios, tambores e máquinas.
A Petrobras entrou como dona, como se a terra estivesse vazia. Mas a terra nunca esteve vazia. Nós estávamos lá.
5. A Fumaça que Trouxe as Doenças
Foi depois das bombas que começou a doença. Os velhos contam que as bombas soltavam uma fumaça forte, diferente, que ficava no ar. Logo depois, começaram as doenças que nós não conhecíamos.
Era diarreia forte, com sangue, gripe muito forte, tosse que não passava, vômito sem parar, febre alta. As crianças foram as primeiras a cair. Depois os velhos. Depois todo mundo.
Tivemos que abandonar as malocas. Não conseguíamos mais ficar dentro de casa com tanta gente doente e morta. Fizemos tapiris pequenos na mata, longe da fumaça, mas a doença foi junto.
Não tínhamos remédio para aquela doença de branco. Nosso remédio da mata não curava. Ficamos sem força para fazer roça, sem força para caçar, sem força para buscar água. Veio a fome junto com a doença. Foi a época mais triste da nossa história.
6. Os Mortos da Epidemia
Na epidemia da fumaça, morreram aproximadamente 40 pessoas da nossa aldeia Shubu Nacshëdbud. É um número muito grande para um povo de nove famílias. Foi quase metade da aldeia.
Muitos corpos não puderam ser enterrados como manda nossa tradição, porque não havia gente forte suficiente para fazer o ritual. Alguns foram deixados nos tapiris. Outros foram enterrados às pressas.
Este dossiê registra os nomes que nossos anciãos conseguiram lembrar. A lista é incompleta porque a dor fez esquecer, e porque crianças muito pequenas morreram sem que todos lembrassem seus nomes hoje. Cada nome aqui é uma vida, uma família, uma história interrompida pela fumaça.
Lista nominal – mortos em decorrência da epidemia 1970-1975 (memória oral)
Fonte: memória oral dos anciãos Raul Dunun, Antonio Tumi e Branco Pemen, julho de 2026. Lista aberta a complementação por outras famílias Matsés.
7. Depoimentos dos Anciãos
Os depoimentos a seguir foram transcritos mantendo a forma de narrar própria, com hesitações e repetições preservadas como marcas da oralidade. São documentos.
7.1 Antonio Tumi Mayuruna
Antonio Tumi Mayuruna
relata que a companhia abriu um grande caminho passando pela roça, cortando pés
de macaxeira, perto de onde moravam, na aldeia Shubu Nacshëdbud, na cabeceira
do Rio Pardo.
Era Cacique Tumi
Mayuruna, apelido Bacuëchëshë. Viviam as famílias Nakua Mayuruna (Modas), Pacha
Mayuruna (Iduasi), Dunu Mayuruna, Tumi Mayuruna (Cachishpi), Bay Mayuruna
(Curuçá), Mawi Kulina (Pabiate Nibëd, sem orelha), Pëmen Mayuruna (Branco) e
Maui Kulina (Cuibu, acolhido após conflito com o povo Kulina). Eram 09 famílias
em duas malocas.
Relata que estavam na
aldeia fazendo festa à noite com o espírito dono da árvore chamado Cuëdënquido.
Durante a festa, o espírito anunciou na língua: ismiabo tsinque choeque ada
pabiado punte, que significa mulheres vão vir, gente conhecida, depois saiu
cantando como urubu e macaco da noite inteira para comunicar que viriam
brancos.
Ao amanhecer, seu pai
reuniu as lideranças. Mandou quatro pessoas para encontrar os brancos e
orientou os demais a ficarem em casa. Disse: quando encontrarem, não matem,
observem escondidos e voltem, vamos tentar contato pacífico. Se eles nos
atacarem, faremos guerra. Depois desistiu do confronto e esconderam as
espingardas.
Por volta do meio dia
ouviram gritos. Duas pessoas chegaram à maloca. O pai disse para não ter medo.
Ao entrarem, ofereceram mingau de banana.
Foi conhecer o local de
pouso de helicóptero junto com Walter Pemen, Vitor Dunu Mayuruna e Curuçá Bay
Mayuruna. Quase todos os trabalhadores pararam as atividades. Apenas um
continuou limpando a picada com terçado e quase atingiu o próprio pé. Depois
foram levados ao acampamento da companhia, onde receberam bolachas e outros
alimentos.
Pouco tempo depois
começaram os casos de diarreia. Seu pai, cacique do grupo, proibiu qualquer
ataque e orientou contato pacífico. Após o início das explosões, o grupo
abandonou a região e migrou.
Morreram diversos
parentes, entre eles sua mãe Marina, Rita, Canë, Tsibidina, Chido Cueste
Mayuruna, seu irmão e muitos outros. Relata o caso de Bëdi Mëmoste, esposa de
Nakua Mayuruna, do povo Dëmushbo, acolhida após conflito. Ela era pessoa com
deficiência, não conseguia se levantar, foi levada de helicóptero e nunca mais
retornou. Até hoje não há informação sobre ela. A filha ficou sob cuidados do
pai.
Segundo sua memória,
mais de quarenta pessoas morreram em consequência das doenças. Depois das
mortes, seu pai conduziu novamente o grupo para o interior da floresta, na
região da cabeceira do Rio Negro, dentro da Terra Indígena Vale do Javari.
7.2 Raul Dunun Mayuruna
Raul Dunun Mayuruna
recorda que era criança, com aproximadamente 12 anos de idade. Lembra do
barulho das explosões na terra para procurar petróleo.
Logo depois, ele e sua
mãe adoeceram com diarreia com sangue, vômito, gripe e tosse. As famílias
passaram a isolar os doentes em pequenos tapiris construídos na mata.
Raul permaneceu ao lado
de sua mãe durante toda a doença. Antes de morrer, ela lhe disse: Meu filho, eu
não aguento mais. Vou morrer. Fique comigo. Não tenha medo.
No final da tarde, seu
pai perguntou de longe sobre o estado de sua mãe. Raul respondeu: Pai, minha
mãe morreu. Seu pai voltou para avisar os demais parentes e preparar o enterro,
depois levou Raul para junto do restante da família.
Relata que passou fome
porque ainda era criança e não sabia preparar alimento. Sua mãe havia sido
sequestrada anteriormente por caçadores peruanos e falava castelhano. Até hoje
guarda profunda tristeza e revolta pelo sofrimento vivido.
7.3 Branco Pemen Mayuruna
Branco Pemen Mayuruna
confirma a fala de Antonio e Raul, afirmando que assim foi o sofrimento causado
pela doença da Petrobras.
Relata que antes de
morrer, Marina, esposa de seu tio Tumi Mayuruna e mãe de Antonio e Raul, sonhou
e disse que não indígenas sequestram mulheres indígenas. Seu tio estava com
raiva pelo falecimento do filho e queria fugir para o mato. Ela dizia estar
muito mal, relatando em sonho: estou me batendo com motor nas minhas costas.
Depois faleceu.
Afirma que no
isolamento também sofreram acidentes como picada de cobra. As crianças passaram
fome, comendo frutas da floresta e carne sem macaxeira.
Finaliza: a empresa
Petrobras precisa reconhecer e pagar pelo sofrimento dos nossos antepassados.
Nós não esquecemos nosso sofrimento.
8. Vestígios Materiais
Atualmente o povo
Mayuruna / Matsés localizou um antigo lote da companhia próximo ao local onde
existia a Aldeia Fruta Pão, no médio Rio Curuçá, dentro da Terra Indígena Vale
do Javari. Segundo os anciãos, foi nessa região que muitos antepassados
adoeceram e morreram. O antigo lote permanece como evidência material da
presença das equipes de prospecção sísmica.
Esses vestígios são prova material. Eles confirmam o que a memória oral conta. Pedimos que a FUNAI e o MPF realizem perícia técnica e georreferenciamento desses pontos, com acompanhamento dos anciãos que ainda reconhecem o traçado das linhas sísmicas.
9. O Que Ficou Depois da Saída
Quando a Petrobras foi embora, não levou só as máquinas. Deixou as clareiras abertas, deixou tambores, fios, lixo, e deixou o caminho aberto para invasores.
Depois das picadas, entraram madeireiros, caçadores e pescadores ilegais. Os animais que tinham fugido com o barulho das bombas demoraram anos para voltar. A roça que foi abandonada na pressa se perdeu.
O que ficou foi o medo, a doença na lembrança e a aldeia vazia. A maloca Shubu Nacshëdbud nunca mais foi ocupada. Viramos um povo deslocado dentro da nossa própria terra.
10. Reivindicações do Povo Mayuruna Matsés
Diante de tudo que foi relatado e provado pela memória dos anciãos, o povo Mayuruna Matsés da Aldeia Nova Esperança do Rio Pardo reivindica:
- 1. Reconhecimento oficial dos impactos causados pelas atividades de prospecção sísmica da Petrobras entre 1970 e 1975 na cabeceira do Rio Pardo, com pedido formal de desculpas do Estado brasileiro e da empresa.
- 2. Reconhecimento das mortes decorrentes da epidemia associada à fumaça das explosões como violação de direitos humanos ocorrida no contexto da ditadura militar, com inclusão no relatório da Comissão Nacional da Verdade e nas políticas de memória.
- 3. Consulta livre, prévia e informada, nos termos da Convenção 169 da OIT, sempre que qualquer projeto de infraestrutura, mineração ou exploração de petróleo e gás ameaçar direta ou indiretamente a TI Vale do Javari.
- 4. Proteção integral da TI Vale do Javari contra qualquer atividade de exploração de petróleo e gás, tanto no lado brasileiro quanto em articulação internacional com o Peru, considerando o caráter transfronteiriço do povo Matsés e a presença de povos isolados.
- 5. Apoio institucional e financeiro para registro audiovisual completo da memória dos anciãos em língua Matsés, com legendas em português, para fins de educação escolar indígena, museu da memória e arquivo público.
- 6. Reparação histórica e de memória, a ser construída com o povo, incluindo memorial às vítimas da Fumaça, centro de documentação na Aldeia Nova Esperança e programa de saúde e segurança alimentar voltado aos descendentes diretos dos sobreviventes.
11. Considerações Finais
Este dossiê não é o fim. É o começo de um reconhecimento. A memória viva dos anciãos é patrimônio coletivo do povo Mayuruna Matsés e patrimônio do Brasil.
Enquanto o Estado não reconhecer o que aconteceu na cabeceira do Rio Pardo, a ferida continuará aberta. Cada vez que um jovem pergunta por que sua avó morreu sem remédio, por que sua família andou tanto com fome, a resposta está nesta fumaça.
Entregamos este documento com confiança nas instituições destinatárias e com a esperança de que a história oficial do desenvolvimento da Amazônia inclua, finalmente, a história de quem pagou o preço com a própria vida.
Nós não esquecemos. Nós estamos aqui. Nós continuamos.
12. Assinaturas, Carimbo e Protocolo
Aldeia Nova Esperança do Rio Pardo, Terra Indígena Vale do Javari, Município de Atalaia do Norte – AM, 12 de julho de 2026.
CPF: ______________________
- ☐ MPF
- ☐ FUNAI
- ☐ DPU
- ☐ Ministério dos Povos Indígenas
- ☐ Comissão de Direitos Humanos
- ☐ Arquivo Aldeia Nova Esperança (original)
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